NELSON RODRIGUES E O DESEJO MIMÉTICO

Elvis Borges Machado

Resumo


A presente comunicação pretende mostrar que Nelson Rodrigues, em várias passagens da coletânea "A vida como
Ela É", demonstra um arguto entendimento sobre o desejo amoroso. O banal tema do ciúme, recorrente em seus
contos, revela o seu caráter potencialmente teórico ao demonstrar que o amor e o ciúme estão inevitavelmente
indissociáveis. Logo, a promessa de um outro, rival/amante, real ou imaginária, torna-se indispensável para a
realização amorosa das personagens rodriguianas. Para René Girard, filósofo francês, o desejo humano é sempre
mimético, porque, sempre, necessitamos de um modelo para avaliar nossas escolhas e legitimar nossos desejos.
Todavia, a nossa falta de autonomia gera uma perpétua coincidência de desejos, pois, como o clichê rodriguiano do
triângulo amoroso, o sujeito passa a desejar o mesmo objeto que o modelo, o que os leva a uma inevitável
rivalidade. Portanto, o destino do desejo é sempre o fracasso, pois sempre caminha para uma inevitável frustração e
rivalidade. Ora, Nelson Rodrigues tinha total consciência desse paradoxo do desejo e é por isso que, na obra
rodriguiana, para perseverar no amor se faz necessário nunca manter a posse absoluta do objeto. Daí as personagens
mais felizes serem aquelas que, agindo como "O eterno marido", de Dostoiévski, sabem dividir seus casos amorosos
como um legítimo casal de três.


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